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Os Kaxinawá (ou Caxinawá, Kashinawa, Cashinahua, Kashinawá, há várias grafias do nome da etnia) são um povo de língua e cultura Pano (um dos principais troncos linguísticos indígenas brasileiros, e não apenas do Brasil; do Peru e Bolívia também) da divisa Brasil-Peru. Eles se definem como “huni kuĩ”, “os homens verdadeiros”. “Nawa” é uma denominação dos povos Pano de como os mesmos povos Pano definem os outros povos Pano que não são o seu mesmo povo Pano. Geralmente de modo pejorativo. “Kashinawa” significa “o povo morcego”; “nawa” significa “povo” (sempre definindo outro povo que não o seu mesmo, estabelecendo uma idéia de alteridade entre os povos Pano) e “kashi” significa “morcego”; mas também pode significar “o que tem costume de andar à noite”, ou seja, quem tem hábitos noctívagos. Por isso mesmo, os Kaxinawá rejeitam essa denominação, por considerarem ofensiva. E realmente a é. Há outros povos Panos com denominações parecidas, os Yaminawa, os Sharanaua, os Poyanáwa, os Tuchináwa, os Iskonáwa, todos de línguas e costumes próximos, de uma mesma origem comum Pano.

 

O hãtxa kuĩ, o “idioma verdadeiro”, é o idioma dos kaxinawá. Possui alguns fonemas (sons) que não encontramos no português. Explicarei sobre eles a partir do próprio alfabeto (desenvolvido por missionários) oficial da língua Kaxinawá (que apresenta pequenas diferenças entre os Kaxinawá do Peru e do Brasil):

 

A – Pronunciada do mesmo modo no português;

B – Também pronunciada tal qual no português;

D – Idem; porém quando entre duas vogais, pronuncia-se como o “r” de “caro”;

E – Não se pronuncia como o “e”. Esta vogal não existe no português; existe em várias línguas indígenas americanas, africanas e asiáticas. O mais próximo de entender de modo simples a sua pronúncia é pronunciar o “i” e lentamente ir aproximando-o do “u”. No Alfabeto Fonético Internacional, esta vogal é representada por /ɨ/;

H – Pronunciada sempre aspirada, como o “rr” de “carro” na fala coloquial. Entre os Kaxinawá do Peru, é escrita como “j”;

K – Pronunciada tal qual;

M – Idem;

N – Idem;

P – Idem;

R – Sempre como o “r” de “pêra”, de modo não-rótico (maneira de pronunciar o “r” fazendo uma espécie de “tremida” no céu da boca);

SH – Como o “sh” do inglês “shore” ou o “x” ou “ch” de “chapéu”;

S – Tal qual no português;

T – Idem;

TS – O “t” e o “s” pronunciados juntos, como uma única consoante, como

o “zz” de “pizza”;

TX – O “t” e o “sh” pronunciados juntos, como uma única consoante, como o “tch” de “tchau” ou o “ch” no inglês de “cheese”, ou o “ch” espanhol de “Chávez”; na grafia peruana do Kaxinawá é escrita como “ch”;

U – Pronunciada tanto como “u” como seu alofone (variante “livre” de uma mesma vogal ou consoante que não altera o sentido morfológico da palavra, só o valor fonético) “o”;

W – Tanto pronunciada como “w” do inglês “wing” como o “u” de “Uruguai”, ou como o “u” de “guapo” no espanhol;

V – Esta consoante não existe no português. O modo mais simples de entender sua pronúncia é pronunciar o “b” de modo bem suave, não deixando os lábios encostarem, como que fazendo uma espécie de “vibração” entre eles. No Alfabeto Fonético Internacional, esta consoante é representada por /β/;

X – Na grafia brasileira do Kaxinawá, ela geralmente se confunde entre o som “sh”, o mesmo “x” ou “ch” do português, e um fonema que não há no português. O modo mais fácil de entender é pronunciar o som “sh” fazendo com que a ponta da língua se curve para baixo. No Alfabeto Fonético Internacional, esta consoante é representada por /ʂ/. Explicarei com mais detalhes adiante;

Y – Tal qual o “y” do inglês “yellow” ou do espanhol caribenho “ya”; ou o “i” do mesmo português “teia”.

 

A pronúncia do “x” na grafia brasileira do Kaxinawá deixa algumas dúvidas. Como mencionei, ela pode tanto identificar o “x” ou “ch” do português, como também a consoante representada por /ʂ/ no AFI (Alfabeto Fonético Internacional). Dependendo do autor e/ou publicação, há uma clara distinção, falando do alfabeto, entre o “sh” e o “x”. O “sh” representa o “x” do português, e o “x” a consoante já mencionada não presente no português. Na grafia peruana, a distinção é mais clara ainda; o “sh” é representado por “sh” e o /ʂ/ por “shr”.

 

Há também uma letra que é representada no alfabeto por um apóstrofo, que indica uma consoante glotal, ou seja, uma consoante que indicaria uma “pausa” na garganta. Geralmente antes ou após uma vogal. Esta consoante é representada no AFI por /ʔ/.

 

As quatro vogais do Kaxinawá também tem a sua versão nasal: “ã”, “ẽ”, ĩ”, “ũ”.

 

A nasalização das vogais também é representada, em publicações antigas, pelo “n” após a vogal: “an”, “en”, “in” “un”. É mais comum encontrarmos as vogais nasais do Kaxinawá grafadas deste modo do que com o til.

 

Quatro dialetos (variantes de uma mesma língua) existem: dois ainda são falados, o kaxinawá brasileiro e o kaxinawá peruano; dois infelizmente já estão extintos: o kapanawa e o paranawa.

 

A língua kaxinawá é caracterizada por sufixos e prefixos; sete prefixos e cinco sufixos. A marcação do gênero vem antes dos substantivos, tal qual no português, mas os artigos e adjetivos são marcados após os substantivos.

 

Há três modos no kaxinawá: o indicativo (que afirma ou declara algo), o interrogativo (que indica uma pergunta) e o imperativo (que denomina um pedido ou ordem direta), todos representados por sufixos no verbo:

 

-aii: Sufixo da primeira e segunda pessoa no presente imperfeito e no futuro do modo indicativo;

-ikiki: Sufixo da terceira pessoa no presente imperfeito e no futuro do modo indicativo;

-ki: Sufixo que funciona como os verbos “ser” e “estar” e que se usa em todos os tempos do modo indicativo, com a exceção do presente imperfeito e do futuro, ou seja, usa-se com o aspecto perfeito;

-ai: Sufixo da primeira e segunda pessoa de verbos expressos no presente progressivo e no futuro do modo interrogativo;

-mẽ: Sufixo de todas as pessoas dos tempos perfeitos do modo interrogativo e denota a terceira pessoa de substantivos ou adjetivos verbalizados com ou sentido de “estar” ou “ser”;

-imẽkaĩ: Sufixo do modo interrogativo para o presente progressivo e o futuro;

-we (também com a variante nasal “-wẽ”, que ocorre após uma vogal nasal): Sufixo do modo imperativo.

 

Para identificar o verbo, elimina-se o sufixo que indica o modo, e “sobra” a raiz do verbo. Ex:

 

“kaii” – “ir” (indicativo): O sufixo “aii”, já mencionado, indica a primeira e segunda pessoa no presente imperfeito e futuro do modo indicativo; a raiz “ka” indica o verbo “ir”.

 

Os pronomes pessoais do kaxinawá existem de duas formas: quando para o sujeito do verbo e quando para o objeto, ou então para o complemento de um verbo.

Mostrarei em uma tabela as duas formas dos pronomes pessoais:

 

 

Sujeito do verbo

Objeto/Complemento do verbo:

1ª pessoa sing.

         Ẽ

         Ea

  2ª pessoa

  sing.

        Mĩ

        Mia

3ª pessoa sing.

       Hatũ

      Hatu

1ª pessoa pl.

       Nũ

     Nuku

2ª pessoa pl.

       Mã

    Matu

3ª pessoa pl.

      Habũ

     Habu

 

Os números de 1 a 10, por se alguém teria curiosidade em saber:

 

1 – Bestitxai

2 – Dabe

3 – Dabe inũ besti

4 – Dabe inũ dabe

5 - Mekẽ besti(ti)

6 - Mekẽ bushka

7 – Metuti

8 - Mekẽ namakia

9 – Mekẽ papi katxukea/Mekẽ namakia katxu

10 - Mekẽ dabeti

 

Do 11 em diante, os kaxinawá usam os números do português ou espanhol.

 

Um pequeno texto de exemplo, com sua tradução seguinte. Um fragmento de um relato de um mito da cosmologia kaxinawá

Yauxiku nawa (O povo sovina)

 

Yauxiku nawa hawẽ inaburã, runu inũ, bina inũ, kape inũ, runuwa inũ, shawã inũ, inu inũ, yawa inũ, awa inũ, txashu inũ, hati inikiaki. Yauxiku nawarã, mawa yunu rasi hayakẽ, huni kuĩ yunumakẽ, hatuki yauxi pauni kiaki. Huni kuĩbu bunikĩ, yauxiku nawã hiwetã kashũ, atsa ea akĩ:

 

 - “Yauxiku nawã ea atsa inawẽ, ẽ buniarã!” Aka.

 

Haskaya ha yauxiku nawã, atsa ewapama shuishũ inã.

 

Haskawashũha huni kuĩ inã hushũ, aĩ yuikĩ.

 

- “Ẽ atsã ea akarã, ewapama shuishũ ea inãshuki”, ishũ hawenabu yuikĩ.

 

Haskatã xinãkĩ: “mexumerã atsa tashu yumetsu nũkawe ita”.

 

Mexuaya huni rabe kashũ, atsa mebi sẽkeshũ, beshũ hatũ baiyanu banakĩ atã.

 

“Yauxiku nawa mani ea anũkawe ika”, bushũ ea akabu.

 

Ha kashũ ea akaburã, eskarabe huxiã shuishũ, hatu inãpauni kiaki.

 

 

O povo sovina tinha muitas criações: cobra, marimbondo, jacaré, cobra grande, arara, felinos, queixada, anta e veado. Tinha vários legumes e aproximou-se sovinando para os povos verdadeiros que não os tinham. O homem verdadeiro foi à casa do povo sovina, pedir a macaxeira:

 

- “Povo sovina, me dê a macaxeira, eu estou com fome”, disse.

 

Então, o povo sovina deu uma pequena macaxeira assada.

 

Com isso, ele deu ao homem verdadeiro, e esse veio e disse para a sua mulher.

 

“Eu pedi macaxeira e ele me deu uma pequena (macaxeira) assada”, disse aos parentes dele.

 

Assim pensaram: “de noite nós vamos roubar a maniva da macaxeira”, pensaram. Escurecendo, dois homens foram pegar os galhos da macaxeira, enrolaram, trouxeram e plantaram no roçado deles.

 

- “(Ao) povo sovina nós vamos pedir a banana", foram e pediram.

 

Eles foram pedir, então ele assou um pouquinho e deu a eles.

 

 

É um mito longo, reproduzi uma pequena parte, mas para que tenham um exemplo escrito da língua kaxinawá a partir de um relato cultural da mesma cosmologia kaxinawá. E é um texto longo este no geral, mas que todos os interessados com isto possam ter uma noção geral da língua do povo Kaxinawá, ou Huni Kuĩ, e das línguas indígenas do Brasil, de um modo primário. E falarei sobre outras línguas, não apenas do Brasil.

Texto : Mauricio Urzua Taleikis  04/12/2016 SP

 HÃTXA KUĨ – A LÍNGUA KAXINAWÁ

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