
Todo (o) mundo é índio.
“Índio”. Afinal, o que é índio?
Voltemos a quando esse termo difundido mundialmente surgiu.
Cristoforo Colombo (Christoffa Corombo na variante dialetal genovesa do idioma italiano do séc. XVI), o “descobridor” da América (uma pinóia!!), por pensar que havia chegado às Índias, segundo seu trajeto de chegar às Índias contornando o mundo (que até então se pensava plano, e ninguém mais veria o pobre Colombo depois que partisse em sua esquadra), chamou o povo que aqui encontrou de “índios”. Isso no primeiro instante. Depois viu que aqui não era Índia coisa nenhuma. Mas o termo já tinha sido popularizado.
Então, índio virou sinônimo de qualquer povo originário deste pedaço do continente americano. Depois virou sinônimo de todo e qualquer povo do continente americano. Quando da colonização e expansão da dominação européia à África, os povos subjugados, em um primeiro momento, passaram a ser chamados de “indígenas”. Isso ocorreu até a descolonização das ex-colônias portuguesas.
Então, os ingleses, no auge do séc. XVIII da sua “grandiosa” frota naval, decidiram navegar até o Pacífico (conhecido já pelos portugueses e espanhóis séculos antes), e se toparam com uma ilhona que batizaram de Austrália. Traduzindo a grosso modo este nome latinizado, seria como “terra do Sul”. Nesta ilha ao sul do Pacífico, também se encontraram com povos que há milênios já habitavam o território. Possivelmente já esperavam isso quando pisaram em território australiano. Em um primeiro momento, também chamaram aqueles povos de “índios”.
Ao longo dos anos, “índio” passou a designar, pela popularidade e expansão do termo, os povos nativos dos territórios do mundo, que habitavam desde gerações quando do seu primeiro encontro e documentação pelos colonizadores.
Porém sabemos que esse termo gera muita polêmica. Porque, inicial e obviamente, já começa por designar um povo que não se refere aos índios em si. Segundo, porque os povos têm seu nome próprio (chama-se “endônimo” a denominação de algo de uma determinada cultura em sua própria língua, que vem dos termos gregos ἔνδον, “éndon”, “dentro”, e ὄνομα, “ónoma”, “nome”, “nome de dentro”, é dizer, “denominação própria”; o contrário seria exônimo, ἔξω, “éxo”, “fora”, “nome de fora”, “denominação de outra língua/cultura”), cada um com sua língua, denominação, cultura, cosmologia, é muito vago botar tudo em um mesmo saco. E um tanto pejorativo. Terceiro, porque, ao longo do séc. XX, vários congressos indigenistas foram realizados (o primeiro foi na década de 40), representados por vários povos de várias partes do mundo, cada região decidindo como seus representantes prefeririam ser referidos como povos indígenas.
Há povos indígenas em continentes que não África, Américas e Oceania. Sim, Europa e Ásia. Principalmente Ásia.
Na Europa, se sabe que os povos indígenas acabaram por formar os modernos povos dos países da Europa. Como? Sendo subjugados por Roma e Grécia. Os tão conhecidos “povos bárbaros”. Se eu disser que até o séc. VII boa parte da Europa era composta por povos nômades, pagãos, muitos deles sem sistema de escrita, que resistiam à catequese e à dominação de seu território, muitos me chamariam de ridículo. E esses povos deram uma baita dor de cabeça a Roma, já estabelecida como centro do Cristianismo. Há um povo, ao extremo Norte do que compreende a Finlândia, Suécia, Noruega e Rússia, que é considerado como o último (quem sabe) povo indígena da Europa. São os lapões (“Sámi” em sua língua. “Suas” línguas, os lapões compreendem 11 povos. Alguns deles já não falam mais seu idioma). E na Ásia, particularmente no Vietnã, Laos, Birmânia, Camboja, Tailândia, Índia, China, Malásia, Indonésia, há povos indígenas. Principalmente nas regiões de floresta. E não são poucos.
O mundo precisa rever seu conceito a respeito dos povos “indígenas”. E pensar um pouco mais neles. Ainda mais sendo eles os históricos e originais habitantes deste mundo. Todos nós, no passado, temos algo de indígena, de algum lugar do mundo. O problema é que muitos de nós desprezam os descendentes diretos desses nossos antepassados. E os consideram um atraso e até um incômodo.
Por isso que o mundo é o que é hoje.
Texto: Mauricio Urzua Taleikis São Paulo 24/11/2016
